Mastigava o meu sórdido e industrializado jantar quando ao ligar a televisão me deparei com uma imagem espantadora: um homem que envergava apenas uma surrada tanga manuseava dois gravetos, refestelei-me em minha cadeira e fixei olhos atentos na imagem, não podia acreditar naquilo! Um homem do século XXI tentava produzir fogo com dois singelos pedaços de madeira quais nossos ancestrais do paleolítico!
A televisão me informara que aquele homem era nosso contemporâneo e vivia no sul da áfrica e pertencia a uma tribo que é considerada um “museu vivo” pelos antropólogos...
Tomei a resolução de continuar assistindo àquele documentário dedicado a relatar o “estranho” modo de vida daquela tribo e vi coisas realmente espantosas aos olhos do homem ocidental, encarcerado no “calabouço do consumismo”, preocupado em comprar o novo objeto eletrônico que lhe é vomitado diariamente pelos veículos de comunicação... Ao observar aquele homem dito “primitivo ou pré-industrial” à busca de sua caça armado com arco e flecha, de pés no chão, usando suas próprias roupas, falando seu próprio dialeto, não pude conter o impulso de quebrar minha televisão, meu computador e tudo que indicasse resignação e conformidade com o promiscuo consumismo ocidental!Mas contive esse “nefasto” impulso e não quebrei nada, mas depois de algum tempo senti algo amargo na língua, olhei para a minha ordinária xícara made in china e percebi que já não havia sequer uma gota de café, então decidi buscar a causa daquele líquido que amargava em minha língua e toquei a minha face, dei-me conta que um líquido saia de meus olhos, constrangido, apressei-me a enxugar a face, não poderia ter dado semelhante amostra de fraqueza aos meus companheiros ocidentais!
domingo, 22 de novembro de 2009
A retina hipersensível de um viajante
Em A bagagem do viajante, José Saramago mostra toda sua sensibilidade para registrar literariamente fatos corriqueiros e “supostamente” sem importância que passam despercebidos ao olhar pragmático e materialista do homem do século XX.
Os olhos do mendigo implorando esmola, a extravagância da pequeno-burguesa que se considera o centro das atenções no restaurante, o constrangimento dos provincianos numa pastelaria chic ... Todos esses fatos aparentemente banais e desprovidos de qualquer importância foram registrados de forma poética pela genialidade do escritor português nascido na pequena aldeia de Azinhaga.
As crônicas de A bagagem do viajante se debruçam sobre vários temas como a mídia, a publicidade entrelaçada à religião, a crítica ao consumismo e aos valores da sociedade capitalista. Em o décimo terceiro apóstolo, por exemplo, o escritor diz que lhe causa engulhos ver a religião “vender detergente” e talvez a carapuça sirva aos padres” star musicians” da Igreja católica, que parecem mais interessados em vender discos do que em difundir a nobre mensagem do Cristo e aos veículos de comunicação que trajando a fétida pele de propagadores da doutrina do Cristo, oferecem livros, CDs e vários produtos aos seus seguidores (ou seria mais adequado usar a palavra clientela), oferecendo-lhes a salvação por meio da compra.
Outra crônica onde o tom irônico e amargo se sobressai é em Um braço no prato. Nesse texto Saramago critica a “pose” pequeno-burguesa através de uma estória cujo eixo é a observação (do autor-narrador) da chegada de um belo casal pequeno-burguês em um restaurante.
Em três cavaleiros a pé, Saramago alcança um ápice de sutileza poética mesclada à crítica amarga ao mostrar a chegada de três provincianos numa pastelaria de Lisboa, e o notório constrangimento daqueles cavaleiros “sem cavalo” por estarem num ambiente ao qual não se consideravam dignos de freqüentar. No desenlace da estória, os três homens envergonhados tomaram a prudente resolução de se retirar da pastelaria...
Os olhos do mendigo implorando esmola, a extravagância da pequeno-burguesa que se considera o centro das atenções no restaurante, o constrangimento dos provincianos numa pastelaria chic ... Todos esses fatos aparentemente banais e desprovidos de qualquer importância foram registrados de forma poética pela genialidade do escritor português nascido na pequena aldeia de Azinhaga.
As crônicas de A bagagem do viajante se debruçam sobre vários temas como a mídia, a publicidade entrelaçada à religião, a crítica ao consumismo e aos valores da sociedade capitalista. Em o décimo terceiro apóstolo, por exemplo, o escritor diz que lhe causa engulhos ver a religião “vender detergente” e talvez a carapuça sirva aos padres” star musicians” da Igreja católica, que parecem mais interessados em vender discos do que em difundir a nobre mensagem do Cristo e aos veículos de comunicação que trajando a fétida pele de propagadores da doutrina do Cristo, oferecem livros, CDs e vários produtos aos seus seguidores (ou seria mais adequado usar a palavra clientela), oferecendo-lhes a salvação por meio da compra.
Outra crônica onde o tom irônico e amargo se sobressai é em Um braço no prato. Nesse texto Saramago critica a “pose” pequeno-burguesa através de uma estória cujo eixo é a observação (do autor-narrador) da chegada de um belo casal pequeno-burguês em um restaurante.
Em três cavaleiros a pé, Saramago alcança um ápice de sutileza poética mesclada à crítica amarga ao mostrar a chegada de três provincianos numa pastelaria de Lisboa, e o notório constrangimento daqueles cavaleiros “sem cavalo” por estarem num ambiente ao qual não se consideravam dignos de freqüentar. No desenlace da estória, os três homens envergonhados tomaram a prudente resolução de se retirar da pastelaria...
sábado, 7 de novembro de 2009
A senhorita do aeroporto na província dos caranguejos
A república dos paletós intocáveis tem sido farta em casos de “racismo” desde que a escravidão foi generosamente abolida pela princesa Isabel.
Acho que me expressei mal ao leitor nas linhas anteriores, pois a nação de que vos falo não tem sido farta em casos de racismo, pois foi essa nação construída sobre os alicerces dessa grande instituição.
Mas quero avisar ao leitor que o texto acima deve ser considerado um breve prefácio, pois quero vos contar um estranho acontecimento da república dos paletós intocáveis, uma sociedade ideal, na qual encontrei grandes semelhanças com aquela descrita por Thomas Morus em a utopia.
O caso ocorreu na província dos caranguejos e se passou da seguinte forma: uma mulher de classe média e nem preciso vos dizer que era loira , bela e de lindos cabelos corrediços chegou ao aeroporto e descobriu que seu vôo tinha partido antes da sua ilustre e majestosa chegada .
Sabeis que as pessoas de classe média são feitos de uma substância especial e conhecem todas os detalhes da rica arte da etiqueta, sabem de que lado do prato deve ser colocado o garfo e a faca , como se deve levar a taça de vinho à boca e tantas outras coisas sem as quais a civilitè humana deixaria de existir .
Mas a digníssima senhorita do aeroporto nos desapontou e mostrou que a esmerada educação que recebeu freqüentando as aristocráticas escolas da pequena província dos caranguejos foi insuficiente para conter seus instintos mais primitivos. Ao gritar “seu nego” a nobilíssima senhorita do aeroporto não exprimiu apenas seu sentimento de raiva, ela assumiu o que todos os habitantes da república dos paletós intocáveis procuram educadamente esconder e devíamos dedicar pelos menos cinco minutos de aplausos por essa grande amostra de sinceridade!
O leitor da república dos paletós intocáveis certamente ficará atabalhoado diante desse acontecimento que acabei de vos contar, pois ele tem plena certeza que vive numa sociedade exemplarmente democrática, onde diferentes culturas convivem pacificamente...
A sociedade de “bugres” massacrados, “negos” escravos e brancos nas gordas sinecuras do estado! ... Eis ai uma democracia exemplar!
Acho que me expressei mal ao leitor nas linhas anteriores, pois a nação de que vos falo não tem sido farta em casos de racismo, pois foi essa nação construída sobre os alicerces dessa grande instituição.
Mas quero avisar ao leitor que o texto acima deve ser considerado um breve prefácio, pois quero vos contar um estranho acontecimento da república dos paletós intocáveis, uma sociedade ideal, na qual encontrei grandes semelhanças com aquela descrita por Thomas Morus em a utopia.
O caso ocorreu na província dos caranguejos e se passou da seguinte forma: uma mulher de classe média e nem preciso vos dizer que era loira , bela e de lindos cabelos corrediços chegou ao aeroporto e descobriu que seu vôo tinha partido antes da sua ilustre e majestosa chegada .
Sabeis que as pessoas de classe média são feitos de uma substância especial e conhecem todas os detalhes da rica arte da etiqueta, sabem de que lado do prato deve ser colocado o garfo e a faca , como se deve levar a taça de vinho à boca e tantas outras coisas sem as quais a civilitè humana deixaria de existir .
Mas a digníssima senhorita do aeroporto nos desapontou e mostrou que a esmerada educação que recebeu freqüentando as aristocráticas escolas da pequena província dos caranguejos foi insuficiente para conter seus instintos mais primitivos. Ao gritar “seu nego” a nobilíssima senhorita do aeroporto não exprimiu apenas seu sentimento de raiva, ela assumiu o que todos os habitantes da república dos paletós intocáveis procuram educadamente esconder e devíamos dedicar pelos menos cinco minutos de aplausos por essa grande amostra de sinceridade!
O leitor da república dos paletós intocáveis certamente ficará atabalhoado diante desse acontecimento que acabei de vos contar, pois ele tem plena certeza que vive numa sociedade exemplarmente democrática, onde diferentes culturas convivem pacificamente...
A sociedade de “bugres” massacrados, “negos” escravos e brancos nas gordas sinecuras do estado! ... Eis ai uma democracia exemplar!
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